Cova Funda Gosto de letras de músicas. Gosto das palavras e de seus sons. Gosto de Tom Zé , Zé Mané! E daí? Isso irrita? Você se irrita com tão pouco, não é? Não se irrita com a vida banida de seu verdadeiro lugar? Nem com a criança feia, fraka e faminta, cheia de pereba na kara suja, deskalça e nua, cheirando cola, éter e benzina? Ah, eu sei, eu sei... Isso é só a vida, não é? Mas você colokaria na kapa do teu disco a kara dos anjos sujos, não é? Tampouco desgosto de Melodia, nem da menina despreocupada, falando bobagem, vendo a hora passar, de bobeira. Tão boba, quanto o menino que pensa que pensa que é. E o verbo ser, no presente na terceira pessoa do singular do indikativo é tão frágil como esse um segundo circunstancial, não é? Quero dizer; pertinente mas não essencial, entende? Mas tudo bem... Eu também já fui menino, ou pensei ter sido um dia. Tudo é tão inverossímil, não é mesmo? Inclusive essa vida que eu não escolhi para mim. Mas no final, você entenderá que kada hum cuida de B, ou de C, Dm, E, FM, G, A#, ou simplesmente de si mesmo, certo? Notas são apenas ondas vibrando no ar, mas se eu as juntar, materializo uma harmonia e aí quem sabe? Faz tempo que não componho nenhuma kanção... Gosto da voz da compositora atriz, sussurrando em meus ouvidos “Don´t you dare/ Interrupt the Wite Hause ball/ We´re living scared/ It´s in foreing fields the soldiers...” e ela só tem 22 anos e é linda, e eu continuo kavando e vou com sua voz até o extremo oeste do Sudão, em Darfur, só porque lá os conflitos não se diluem com gelo, me diz a linda Stone em minha orelha de Van Gogh que não te escuta mais. Platão já conhecia a existência das coisas que são belas por si mesmas e que fornecem um prazer puro que não aquele da cessação da dor ou aflição. Então, meio triste digo a ela pelo ar, que infelizmente “Pictures of starving children sell records”, ou algo perto disso e sigo kavando o ar. Hoje me flagro diante do espelho olhando e ouvindo o ”velho”, tentando em vão descobrir as possibilidades que essa palavra me oferece. No ar eu não me deitarei espremido. Por isso o ar eu kavo. Como dizia, gosto das palavras. Gosto de escrever kaza com k, porque assim me parece o som da palavra que traduz o que eu não tenho. Como eu afirmava, gosto das palavras. Com elas, karrego para dentro do buraco que kavo, banimento voluntário, isolamento e solidão. Eu produzo as palavras e elas me arrastam com enxadadas primitivas para uma cova muito profunda que eu ainda tento eskavar. Kavo kada bendito torrão, todo santo dia, para ter algo que me acolha na derradeira noite fria de minha vida. Talvez por isso eu kave sempre tão fundo, ainda que não seja o chão. Pois é, eu kavo o ar impalpável e não a terra, porque deitar ali não é apertado. Ao contrário, é largo. E depois, se tiver de fugir para nunka mais voltar, é muito mais rápido desenkavar, não é mesmo Rubens K? Eu sei que é meio tarde mas eu tive uma idéia pra uma nova kanção... Perdi, no segundo que akabou de passar, porque tudo passa quando se está dentro de um velho chevrolet, certo? As palavras viram fumaça, viram nuvens e se espalham pelo ar. Lugar em que é mais fácil pousar. Tudo nesse mundo vai passar. A noite passa, o amanhecer passa, a vida cheia de tristeza que alguém acha poder diluir com gelo, passa. Esse mundo _ ainda que eu kave noite e dia_ , eu não aprendi amar. Porque por mais que eu tente, sou tão egoísta, que primeiro quero ensinar o mundo a kavar. Gainsbur & Birkin Glauco Mattoso Quando eu era moleque, e só pensava em múzyka, eu lia e escutava poesia e achava tudo muito inacessível. Por isso preferia fazer letras de múzykas. Anos depois me flagrei no meio de discussões do tipo: Até que ponto letra de múzyka é poesia & outras coisas parecidas . Enfim; apesar de perder-me constantemente nos labirintos das palavras e seus ofícios, pelos meus orifícios superiores as palavras entravam e saiam em meus condutores bizantinos do cérebro e eu fui aprendendo a gostar. O que absolutamente não signifikava que eu sabia (e ainda não sei) fazer & ou inventar...palavras. Mas elas e seus donos, foram tomando forma e cor e cheiro, e finalmente eu fui gostando kada vez mais da brinkadeira séria. Um dia, acho que voltando do colégio Arquidiocesano, um kamarada de classe me mostrou uns poemas de um kara muito louko, que havia saído da USP, e que gostava de transgredir. Quando eu li o poeta eu disse ao meu kamarada: “Nossa (na époka a gente não soltava uma porra qualquer por aí, não! Só se escutasse a Jane Birkin kantando “Je t´aime” do Serge Gainsburg), esse kara aí _ eu continuei_ é muito louko! Ô Torto??!!..(era o apelido de meu kamarada), num entendi nadinha!!” O poeta era o Glauco Mattoso. Remexendo em minhas traças achei este poema, que de fato, por conta da merda que aconteceu com uma guria numa faculdade qualquer dessas esquinas da vida, que foram inventadas na époka da ditadura, me fez rememorar o kara. Glauco 15/10/2005 Não há quem melhor defina o trote universitário que um aluno que compare-o à sadia disciplina que impera entre gente fina! Mas lembro que não é só na USP onde alguém sem dó, sabe usar o sujeito: no Mackenzie já fui feito de capacho e lambi pó! Me recordo do forró que a veteranada fez comigo e com mais dois ou três: nos chamavam de “totó” e mandavam que no nó dos cadarços do pisante nós fuçássemos bastante até poder desatá-lo com a boca e... O restante você procura por aí, porque eu acredito em Deus, no Demo e também acho que o crescente número de kazos de kâncer de mamas entre os homens é por culpa da passeata gay. Faça-me o favor!!!!! Mas isso é para dizer que continua o excelente trabalho de Ademir Assunção, o Pinduca, lá no Sesc Consolação. Bravo, Pinduca!!! 
Escrito por Paulo de Tharso às 13h27
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Você diz que sempre tive uma vida secreta. Você está certa. Mas esta sempre foi a minha vida. Não há o que dizer. Eu sempre estive no final da fila dos desempregados. Amargando por alguns trocados. Sempre fui o próximo do próximo. Dentro dos meus agasalhos Eu na frente, atrás o cão Sigo sempre contra o vento Sem direção A tristeza está em close A lata, a cama de papelão Eu caminho contra-feito E me segue o cão Encouraçados em seus carros Ajuntados em lotações O povo espera o chamado, a voz das nações E o próximo? O próximo é você E a vida segue numa guerra civil em todas as esquinas, apesar dos cânticos bucólicos dos românticos quânticos alcoólicos, que começam a sinfonia num beco sórdido e que fatalmente terminam sem saída. E quando acordam, descobrem... perderam a vida. Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas, e sempre que penso numa coisa estou pensando noutra aurora de minha vida nunca descoberta. Merda! Do outro lado da rua, que encontrei naquela próxima esquina, a mulher definitiva de um outro que não sou eu, passa feliz com os cabelos soltos e pensa que tudo está certo, pois ela está em seu carro amarelo, lá, dobrando a próxima esquina, no seu momento eterno, quando um bólido vermelho abalroa sua vida contra as pedras da existência finita, e a lança para o trottoir imediato do irremediável cimento cinza. Ainda bem que ela não era minha. 
De tão inquieto já não choro Já na me segue mais o cão Ele tem olhos famintos Eu outra direção Eu também estou seguindo Mãos nos ombros das multidões Também espero o chamado, a voz das nações... E o próximo? O próximo é você
Escrito por Paulo de Tharso às 19h10
[]
[envie esta mensagem]
[link]
LEMINSKI VIVE  E ainda falando do poeta samurai, tunguei um lance que o Jotabê Medeiros escreveu. 
“Lá pelo dia 15 de dezembro, a família Leminski baixava no meu apartamento no Rio de Janeiro para passar as festas do final de ano. Eu adorava aquela turma do leminski, a gente passava dias fazendo música, escrevendo, bebendo, tocando. Foi um dos períodos mais criativos da minha carreira. Um dia a gente tava sem fazer nada e resolveu tomar um ácido para animar. Tomamos o ácido e ficamos lá, mas o negócio não batia. virou uma pasmaceira, a gente lá e o ácido não batia. Até que o Leminski levantou e disse, com aquele jeitão dele: ‘Ôrrrra, esse ácido deve ser fajuto! Esse tempo todo parado aqui e nem um verso, nem uma rima?!?’” Jotabê Medeiros
Pensamento ao final do dia: "Tire seu pescoço cortado da minha faca". Diane Di Prima
Escrito por Paulo de Tharso às 12h53
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|